Em tempos onde a TV aberta luta para manter sua relevância e audiência, uma prática antiga vem sendo apontada por críticos e especialistas do meio como o verdadeiro “começo do fim”: a venda destemperada de horários na programação. Se houve um tempo em que montar uma grade era sinônimo de prestígio, estratégia e curadoria impecável, hoje o que se vê são blocos inteiros sendo comercializados indiscriminadamente, diluindo a identidade das emissoras e, principalmente, a paciência do telespectador.
A lógica por trás dessa comercialização é, inegavelmente, financeira, mas as consequências vão muito além do faturamento momentâneo. O que chega para o público é um mosaico sem sentido, onde programas religiosos dividem espaço com televendas, produções independentes de qualidade duvidosa e infomerciais exaustivos, tudo isso sem um fio condutor que justifique a sequência ou a permanência em um mesmo canal. Essa descaracterização afasta o público fiel, que busca conteúdo de valor e uma mínima organização.
Especialistas do meio televisivo já alertam: a estratégia de encher a grade com o que dá dinheiro fácil pode ser um tiro no pé a longo prazo. Enquanto plataformas de streaming investem pesado em curadoria, produções originais e uma experiência de usuário pensada, a TV aberta corre o risco de virar apenas um painel de anúncios disfarçado, perdendo de vez seu propósito e, mais crucial, sua audiência para sempre. O prestígio, aparentemente, foi vendido junto com os horários.